sexta-feira, 9 de julho de 2010

Parar para pensar


As pessoas, hoje, talvez subjugadas pela pressa,
Não andam, correm;
Não param, cruzam-se;
não conversam , gesticulam;
não escutam, ouvem;
não vêem, olham;
não sentem, reagem;
não convivem, estão juntas.
As pessoas, hoje,
caminham lado a lado
sem jamais se encontrarem.

É.S.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

FOI O TEMPO QUE PERDESTE COM A ROSA


"Foi o tempo que perdeste com a rosa que tornou a rosa tão importante para ti". Lemos, comentamos, admiramos, mas vivemos? Numa sociedade de "imperativos categóricos" como a pressa, urgência, ruído, competição e hedonismo, sabemos "perder" tempo? Os blogues, facebook, twitters, são muitas vezes apenas a versão digital de uma vida insana, ébria de actividades ainda que meio vazias. Como se fosse proibido parar, como se todos tivessemos um bicho carpinteiro, como se perder tempo, no sentido do Principezinho, fosse um mal social. Eu tenho blogue e facebook, mas não tento fazer, de um ou de outro, uma afirmação da minha personalidade, um poder que não tenho ou uma mera satisfação pessoal. Penso que na Partilha reside o segredo, aquela que nos abraça e comunga ainda que sejamos estranhos.


São hoje as amizades ainda como no filme "O Caçador" (só para ilustrar com alguma coisa?) Os amigos ainda se importam assim? Por onde anda que não numas larachas da praxe, uns convites para irmos a todo o lado mas não estarmos em nenhum, e um contínuo satisfazer pessoal e social como se fossemos bonecos em mupis?


Confunde-se muito alegria com habituação ao barulho e a actividades constantes. Confunde-se Partilha com mera satisfação pessoal. Confunde-se amizade com tudo aquilo que possa provocar prazer. E não há tempo para nada, mesmo que o consigamos arranjar para tudo. "Foi o tempo que perdeste coma rosa que tornou a rosa tao importante para ti"...


Texto do meu querido amigo Daniel.

É.S.

domingo, 6 de junho de 2010

Diz Que É Uma Espécie de...

Quando nos comprometemos com alguma coisa devemos demonstrar interesse, nem que seja para que os outros pensem que fazemos aquilo com gosto e que não estamos lá apenas por estar. E quando pertencemos a um grupo o nosso nível de interesse tem por obrigação de ser mais elevado, uma vez que se estamos ali é porque queremos.
Num grupo é suposto que haja uma consciência que partilha dos mesmos valores, regras e objectivos.
E quando as coisas não são assim será que pudemos dizer que estamos perante um grupo?
Eu digo que não! Para existir um grupo é necessário que haja uma relação de continuidade prolongada num espaço de tempo e que todos os seus elementos assumam com responsabilidade a escolha que fizeram. E não se limitem a tentar convencer os outros mas sim vocês mesmos, caso contrário, a vida será uma ofensa e as palavras terão sido ocas e em vão. Escutem e não queiram apenas fazer-se ouvir, pouco se importando que, nessa sua ânsia de se fazer ouvir, a sua voz acaba por dissolver na multidão dos ruídos que poluem o nosso universo quotidiano. Tornando-se indiferentes ao próprio coração que acabam por não escutar e, por isso, também não conseguir conhecer nem seguir.
É necessário repensar as atitudes e aquilo que realmente queremos, não basta só querer para que as coisas aconteçam é necessário um esforço por parte de todos. Porque quando há uma grupo há um todo que deve/deveria funcionar em harmonia, não digo harmonia perfeita porque é impossível, mas numa harmonia que permita a própria existência do grupo.
Temos de nos esquecer de nós muitas vezes para não cairmos na tentação de fazer o mundo girar só à nossa volta... Ao menos tentem...
Adeus (a forma mais fácil de dizer que talvez tenha sido bom e até à próxima)!

É.S

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Toque


É a sensação de toque!
Numa cidade a sério as pessoas caminham, roçam umas nas outras, trocam encontrões...
Aqui, ninguém se toca. Estamos sempre trás do metal e vidro. A falta desse toque é tão doloroso, que nos espetamos contra os outros só para sentir qualquer coisa.
Tornamo-nos prisioneiros de um Universo de palavras impessoais, sem toque, sem sabor e sem gosto.


terça-feira, 11 de maio de 2010

A necessidade da compaixão

"Arrebatavam-me os espectáculos teatrais, cheios de imagens das minhas misérias e de alimento próprio para o fogo das minhas paixões. Mas porque quer o homem condoer-se, quando presenceia cenas dolorosas e trágicas, se de modo algum deseja suportá-las? Todavia, o espectador anseia por sentir esse sofrimento que, afinal, para ele constitui um prazer. Que é isto senão rematada loucura? Com, efeito, tanto mais cada um se comove com tais cenas quanto menos curado se acha de tais afectos. Mas ao sofrimento próprio chamamos ordinariamente desgraça, e à comparticipação das dores alheias, compaixão. (...) Amamos, portanto, as lágrimas e as dores. Mas todo o homem deseja o gozo. Ora, ainda que a ninguém apraz ser desgraçado, apraz-nos contudo a ser compadecidos. Não gostaremos nós dessas emoções dolorosas pelo motivo de que a compaixão é companheira inseparável da dor? A amizade é a fonte destas simpatias."
Santo Agostinho, in 'Confissões'

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Outro lado

Não desesperem, almas tristes. Ainda nos restam 50 quilos de vida.
E acreditem, eles não sabem que do outro lado há nuvens e fogo,
ribeiras de amor trazidas de outro lugar. E um cisne que diz a sua
idade com os dedos...

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

O Louco


Perguntais-me como me tornei louco. Aconteceu assim:
Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas - as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas - e corri sem máscaras pelas ruas cheias de gente gritando: "Ladrões, ladrões, malditos ladrões!"
Homens e mulheres riam-se de mim e alguns correram para casa, com medo de mim.
E quando cheguei à praça do mercado, um rapaz no cimo do telhado de uma casa gritou: "É um louco!" Olhei para cima, para vê-lo.
O sol beijou pela primeira vez a minha face nua.
Pela primeira vez, o sol beijava a minha face nua, e a minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais as minhas máscaras.
E, como num transe, gritei: "Benditos, benditos os ladrões que roubaram as minhas máscaras!"
Assim tornei-me louco.
E encontrei tanta liberdade como segurança na minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendido, pois aquele que nos compreende escraviza alguma coisa de nós.